quarta-feira, 13 de maio de 2009

Sobre Laura, Hormônios e Relacionamentos

Uma das coisas que eu mais gosto, e que acaba por permear a sociedade atual, é essa efemeridade intrínseca na sociedade de hoje. Tudo é descartável. Tudo é passageiro. Normal que isso acabasse virando uma das características dos relacionamentos atuais (um dos clichês, que mais faz sentido sobre relacionamentos, diz que nos tornamos céticos após uma decepção amorosa, por isso não temos mais saco pra qualquer coisa que dure mais que duas semanas).
Outra verdade sobre "o amor" é que fantasiamos nosso relacionamento, e geralmente nessa fantasia a outra pessoa fica com a parte boa da relação, enquanto a culpa por algo errado é sempre nossa, o que não é verdade, somos melhores de maneira independente.
Essas duas verdades já eram suficientes pra me manter longe de relacionamentos sérios.
O fato de ser passageiro me isentava de um monte de merda que vem no pacote de um relacionamento sério, era como ouvir música no rádio, quando não gosta da canção que está tocando, é só trocar a estação.
Isso é um pensamento egoísta, eu sei, mas isso está presente em qualquer aspecto humano, o egoísmo move o mundo, e de certa forma isso é saudável.
Há boatos que o ser humano é um ser racional, é mentira, a racionalidade humana é fundada na nossa passionalidade e isso traz uma imprevisibilidade a nossa existência. Essa imprevisibilidade é o que dá graça e sentido a vida, já nascer com tudo planejado deve ser um tédio.
Ironicamente, eu já havia planejado meus próximos vinte anos e neles eu beberia muito, transaria algumas vezes, brigaria esporadicamente e frequentaria alguns estádios de futebol, minimizando ao máximo o contato com o resto do mundo (ou deixando esse contato pra quando eu estivesse bêbado), mas quando o tempo é uma constante, a gente esquece das variáveis (as pessoas).
Sinceramente, eu não lembro de onde elas apareceram, nem como elas apareceram, mas quando eu notei a existência delas eu já estava envolto pelas duas. Uma era a antítese da outra, mas estranhamente, no meu mundo, era como se elas se completassem.
Cada uma me encantava a sua maneira, eram relações diferentes, eram situações diferentes.
A primeira me fazia acreditar de novo naquele sentimento pueril de início de namoro, era com ela que eu queria ficar, fazer todo aquele ritual clichê de relacionamentos ( apresentar a família, aos amigos, fazer todas aquelas coisas triviais). Já a segunda estava cercada de um ar de mistério, um ponto de interrogação. Com a primeira havia um sentimento de proteção, eu queria cuidar dela, guardar ela pra sempre comigo, já a número 2 despertava todos os meus instintos animais, era pura tensão sexual, sem firulas, sem máscaras, sem personagens.
Graças a elas meus planos haviam mudado, não importa com qual eu ficasse, eu já estava fudido.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Depois de um dia atípico, totalmente banal (salvo alguns acontecimentos), comecei a refletir sobre a idéia de perda, mais precisamente no pavor que a sociedade têm da morte.
É incrível o pudor que as pessoas têm ao tratar esse assunto, o que é irônico, porque como já dizia algum velho poeta/filósofo/atriz/modelo, a única certeza da vida é a sua finitude. Esse ideal de morte como um fim, acaba por prender as pessoas de tal forma que elas acabam de esquecer que pra morrer, primeiro é necessário viver e isso faz a pessoas cagarem tudo, ninguém da bola pra vida, o ser humano se subestima.
Não há motivos pra se lamentar a morte, existe sim motivo pra lamentar sobre a vida na qual as pessoas levam até o momento da morte. O homem tende a mediocrizar sua existência.
São diversos estímulos externos menosprezando nosso intelecto (sim, eu também faço parte dessa sociedade "pós-moderna"), somos bombardeados pela novo reality show, última tendência, nova banda do momento ou nova religião emergente.
Somos submetidos a inúmeras informações e nelas tentamos provar nossa individualidade - ninguém quer ser só mais um na multidão - não nos damos conta, mas essa individualidade buscada nesses estímulos, acaba por nos massificar e estigmatizar (prometo não vou abordar esse tema de novo), ficamos assim a mercê de uma rotina que nos menospreza, nos julga e nos massifica.
"Start your own revolution", já dizia a frase panfletária do passado, não sei se ela faz tanto sentido hoje, por incrível que pareça é mais fácil tentar mudar o mundo, é mais cômodo, está longe do nosso alcance. O irônico que a verdadeira revolução começa de dentro pra fora, antes de se preocupar com o mundo ao redor, é necessário um exercício de autocrítica, temos que combater nossos próprios moinhos, pra ae então nos alçarmos a revoluções maiores.
É simples colocarmos a culpa na sociedade por nossas frustrações, rancores e mazelas, assim nos abstemos de lutar e ficamos no nosso canto assistindo a vida passar e presos a uma rotina onde apenas sobrevivemos e esperamos a tão temida morte chegar.

sábado, 4 de abril de 2009

Nunca fui bom em me encaixar em grupo algum, sempre prezei pela autosuficiência, acho que desde os tempos da escola nunca fiz questão de pertencer a clubinho algum, não sei se era uma vontade de quebrar as regras de convívio (mesmo que inconscientemente) ou só uma rebeldia infantil, mas o fato era que o convívio social nunca foi uma das minhas prioridades, minha individualidade era o que eu tinha de melhor.
Com os anos, a presença das pessoas passou a me entediar cada vez mais.Viver preso a um determinado nicho social nunca foi solução de merda nenhuma, grupos sociais tendem a ser desprezíveis.
Existe uma determinação da sociedade atual em rotular qualquer ser humano presente nesse gigante ecossistema, seja pela cor da pele, sexualidade, gosto musical, jeito de se vestir ou tamanho da cueca.É deprimente essa necessidade de rotular e massificar tudo, a identidade acaba perdendo o valor pessoal e servindo apenas como identificação social.
O irônico é que mesmo as pessoas que não se aplicam a esses códigos de conduta impostos por determinados grupos sociais acabam recebendo um rótulo, eles usualmente são chamados de "outsiders".
Ser chamado "outsider" ( que em uma tradução livre quer dizer "lado de fora"} acaba por caracterizar alguém como não seguidor dessas convenções sociais de conduta. Mas isso é só questão de ponto de vista, aos meus olhos, "outsider", é aquele que está de fora do meu clubinho ( seja lá qual for ele).
É óbvio que temos coisas nas quais nos identificamos mais, também é óbvio que nossos gostos musicais, literários, cinematográficos, artísticos, futebolísticos e sociais ajudam a fundamentar nossa identidade, mas sermos estigmatizados a um grupo social apenas por algumas afinidades culturais ou códigos estéticos é mediocrizar nossa capacidade intelectual e a nossa própria personalidade.
"Viver na modernidade, mas com os olhos de um medieval" (não lembro o autor dessa frase, mas como ela foi citada por um dos meus mentores intelectuais, tenho respaldo ao usar ela), talvez essa seja síntese da sociedade de hoje, que apesar da velocidade e da quantidade de informação com a qual convivemos, ainda somos presos a necessidades pré-históricas de tribalizar nossas relações sociais.
Roupas, música, corte de cabelo, time de futebol, é tudo besteira, não serve de parâmetro pra rotular ou isolar alguém a determinado nicho social. Enquanto continuarmos nessa merda, presos a pensamentos medievais (ou pré-históricos, tanto faz), eu vou pro bar encher a cara que eu ganho mais.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

- Merda, maldita ressaca, acordei aquela manhã com o peso do mundo nas costas, essa sensação costumava me lembrar que eu ainda era um ser humano, me trazia de volta a realidade, eu gostava, mas não essa semana.

Levantei – dor de cabeça dos infernos - eu pensei, preciso um analgésico ou outra dose de uísque - decidi por nenhum dos dois. Fui à cozinha preparar um café, as coisas mais simples se tornam extremamente complicadas quando se tem uma banda marcial tocando incessantemente na sua cabeça. Decidi ligar o rádio, tocava uma música do Tom Waits (Hold On, alias nada mais apropriado).

Eu a encontrei no bar, aquela noite, ela destoava daquela corja, linda, com uma arrogância de quem não pertencia aquele lugar, ela era boa demais pra estar sentada naquela espelunca.

Não fui o único a notar sua presença ali, todos os outros vagabundos também a notaram, era impossível não notá-la, mas estranhamente ninguém teve coragem pra se aproximar. Eu tive. Bom pra mim ( hoje já não tenho certeza disso).

Ela estava sentada próxima à jukebox, no canto do salão observando todos como se esperasse algo, ou alguém, decidi esperar alguns minutos ate me aproximar, queria ter certeza que aquela noite ela seria minha.

Lembro perfeitamente daquele decote que delineava seus seios, aquelas pernas cuidadosamente cruzadas e aquele Martini sobre a mesa. Na hora não entendi, agi como um adolescente, era uma armadilha, não havia amanhã com ela, eu seria somente mais uma aventura, mais um de seus inúmeros casos, mas eu não sabia e cometi a cagada de me apaixonar.

Depois de alguns instantes somente a observando resolvi me aproximar, decidi me despir de minhas cantadas prontas e piadas vagabundas, e falar a primeira merda que viesse a cabeça:

- Tu sabe que é por causa de mulheres que nem tu, que caras que nem eu freqüentam esse tipo de espelunca?

-Então vir aqui me poupa de metade do trabalho então.

Notei que ao mesmo tempo em que ela parecia desinteressada na minha presença, ela clamava por sexo, o diálogo pouco interessava pra ela, ela era mais direta, a libido dela dava pra ser sentida num raio de cem metros, ela realmente queria sexo.

Após algumas bebidas, saímos do bar, sabíamos o que queríamos, precisávamos terminar aquele serviço.

Fomos ao meu apartamento (se é que da pra chamar aquilo de apartamento), segui o ritual típico de uma foda, pus alguma canção clichê de soul music dos anos 70 – pense em alguma do Marvin Gaye ou Al Green – abri uma garrafa de vinho e diminui as luzes. Foi um dos sexos mais selvagens da minha vida, pronto eu estava nas mãos dela.

Acordei, ela não estava, já tinha partido, sem nome, sem telefone, nada.

Fui ao bar àquela noite na esperança de que ela estivesse ali, sentada novamente junto à jukebox. Mas eu deveria saber: predadoras nunca repetem o mesmo ecossistema duas vezes, ela devia estar em outro bar devolvendo esperança a outro vagabundo alcoólatra que nem eu.

Sentei no lugar de sempre, no balcão, próximo ao banheiro (isso me poupava trabalho), aquele dia bebi mais que o normal, eu tinha abandonado todos os meus personagens praquela vagabunda que só me usou, foi então que o garçom disse:

- Ela não deixou endereço, telefone ou nome não é?

-Como você sabe?

-Eu sei.

-Como?

-No final amigo, é tudo sobre elas

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Velhos Lugares, Novas Perspectivas

Algumas semanas haviam se passado desde aquela noite, estranho como os dias se arrastavam, eu tinha adquirido novos hábitos, minha vida havia tomado um novo rumo.
Passava os dias a vagar pela cidade, estava em busca de algo ainda desconhecido. Seria um novo subemprego onde me entediaria em dois meses? Seria a mulher que seria o novo amor da minha vida pelas próximas três semanas? Ou estava apenas a gastar tempo até o bar abrir e enfim eu me afundar em bebedeiras e assuntos aleatórios com algum estranho?
Apesar dos meus esforços pra não me tornar mais um típico clichê bukowskiniano, admito que me sentia bem com a vida que eu estava vivendo, apesar de não ter nenhuma perspectiva sobre o futuro, pela primeira vez em tempos eu era auto suficiente, tinha controle sobre todas as minhas atitudes. Não sentia mais ninguém sugando minhas energias. Não me entendam mal, eu realmente não possuía sentimentos ruins quanto ela, pelo contrário, essas semanas me fizeram nutrir um carinho enorme, mas o senso de realidade me mantinham longe da idéia de que voltar com ela era uma hipótese a ser estudada.
Passava o dia na minha jornada de passar despercebido junto a multidão que habitava as ruas da cidade, era um exercício de observação e autoconhecimento, a luz do dia, era um obstáculo a ser transpassado, uma barreira que me impedia de freqüentar o bar, contava as horas até o sol se por e eu finalmente me sentir em casa, naquele imundo balcão junto a minha nova família.
Quando noite caía eu sentia um enorme conforto, aquela penumbra me acolhia, eu era mais um componente daquele ecossistema noturno.
A cidade parecia respirar um ar novo à noite, as pessoas se entregavam, os bares cheiravam a sexo ( e a álcool também), o pudor presente naquela sociedade pueril que invadia as ruas com seus ternos bem passados e suas maquiagens discretas sumia numa espécie de busca pelo último sexo de suas vidas.
Eu havia me abdicado dessa busca, as relações sociais haviam perdido a importância, o único carinho que eu nutria era pelo álcool, não procurava amigos - embora tivesse criado um vínculo com o garçom do bar – muito menos alguma desgraçada pra arrancar mais um pedaço de mim. Mas nessa noite havia algo diferente no bar, não identifiquei o que era, pois a jukebox era a mesma, a mesa de sinuca estava lá, os mesmos bêbados falavam dos mesmos assuntos. Foi então que eu vi o que havia de diferente ali, era ela, linda, radiante, uma gota de cor naquela merda preto e branco na qual eu me encontrava, com uma cruzada de pernas me fez retomar toda a fé que eu havia perdido na sociedade, já não importava o álcool, o garçom, o caralho a quatro, não queria pensar em nada, só em um jeito de me aproximar dela.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Um típico clichê....

Já era tarde naquela noite fria de terça-feira, acho que era o inverno começando. O ano? O mês? Não importa, quem se atém a detalhes quando se sente que nem merda? Estranho como eu nunca tinha notado aquele bar, ali no meio da quadra, com um neon antiquado iluminando a fachada. È irônico como nos sentimos acolhidos nos piores lugares após uma decepção amorosa.

Lembro que ela disse que não havia mais volta, eu não completava mais ela –ela falou algo sobre não estarmos na mesma sintonia- não respondi, dei as costas, fechei a porta e saí. Definitivamente não assimilei o que aconteceu na hora, só queria sair daquela casa, aquele ambiente tinha se tornado estranho pra mim ( De quem eram aqueles móveis? Quem era aquela mulher ali parada, chorando?).

Caminhei algumas quadras pensando que talvez tivesse perdido a mulher da minha vida. Meu único amor. Pensei em voltar, pedir desculpas, abraçá-la e, quem sabe, ter mais umas daquelas noites de sexo que costumávamos ter após uma ou duas garrafas de vinho. Mas de que adianta desculpas se a sintonia já não é a mesma?

Passeando pelas ruas mal iluminadas do bairro, juro que tentei achar um motivo, uma razão, um ponto de ruptura para o fim daquilo que um dia eu chamei de amor eterno. Depois de alguns minutos de reflexão, desisti, já não fazia diferença. Estranhamente me sentia bem com aquela situação, eu respirava um ar novo, que me revigorava, me deixava mais vivo.

Andava em círculos, passei inúmeras vezes pela frente daquilo que um dia eu chamei de lar, lá estava ela, parada junto a janela, sei que um dia me importei com aquela cena, mas ao vê-la ali parada, com o rosto inchado, com lágrimas ainda correntes pelo rosto, sentia um misto de alívio, desprezo e indiferença.

Já não fazia idéia há quanto tempo estava na minha solitária jornada pelo bairro, mas já era tarde, pois até os tipos mais mal encarados já haviam se recolhido das ruas.

Foi então que avistei aquele neon pulsante a minha frente ( na verdade nem tão pulsante assim, algumas letras haviam queimado, devido a ação do tempo), aquele bar, antes nunca notado por mim, agora parecia um templo, meu mais novo refúgio.
Estranho como o bar tinha um aspecto diferente visto de dentro, todo o brilho do neon na fachada se ofuscava diante do caos controlado que imperava no outro lado. Ao fundo uma velha jukebox tocava um antigo rock’n’roll (Carl Perkins senão me engano), a tensão emanava da mesa de sinuca –os mais variados tipos se encontravam ao seu redor, formando ali uma tênue linha entre a civilidade e a selvageria- nas mesas se via desde casais de meia idade, até prostitutas baratas em busca de algum cliente, cheguei a cogitar a hipótese de ter um sexo barato com alguma delas, mas aquela noite eu buscava a solidão.
Evitei o aglomerado de gente, não queria ninguém ao meu redor, estranho como a presença humana me entediava. Sentei junto ao balcão, com um ou dois bêbados, pedi uma cerveja ao garçom, bebi num gole só, logo pedi a segunda, então o garçom falou:
- Noite difícil?
- Já tive melhores.
- Problemas financeiros ou amorosos?
- Porque seriam?
- Sempre são.
- E se não fossem?
- Bares como esse não existiriam.
Irônico como eu havia me tornado um clichê, será que toda aquela fauna presente naquele boteco de terceira categoria (definitivamente, aquilo não era um lugar de gente decente) estava ali pelo mesmo motivo que eu? Alias por qual motivo eu estava sentado naquele balcão ?
Dediquei a noite a imaginar por qual razão aqueles seres que mesmo de maneira involutária me faziam companhia, bebiam, uma espécie de busca – havia de achar alguém mais miserável que eu- essa foi uma das noites mais prazerosas da minha vida, se havia alguém mais miserável que eu dentro daquele recinto? Não sei e sinceramente não importava, uma das melhores coisas quando se bebe é que as pessoas desaparecem após algumas doses e era isso que eu buscava aquela noite, a serenidade presente na solidão do balcão do bar.